Um jovem de 20 anos, identificado como Ezequiel Cardozo da Silva, está desaparecido desde o dia 6 de fevereiro deste ano, após ser detido por dois policiais militares no Portal da Barra, em Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo. O rapaz teria sido algemado e colocado no camburão da viatura, e os policiais escreveram no boletim de ocorrência daquela noite, obtido pela reportagem, que, ao chegarem à Delegacia Regional de São Mateus, o rapaz já não estava mais no veículo. Desde então, Ezequiel não foi mais visto. Familiares ouvidos sob reserva, por medo de retaliação, pedem investigação e responsabilização dos policiais militares envolvidos.
Segundo o boletim de ocorrência feito pelo cabo Jandson Pinto da Silva e pelo soldado Francisco Schneider Júnior, que atuaram na prisão de Ezequiel na noite do dia 6 de fevereiro, a corporação teria recebido uma denúncia anônima informando que um homem com mandado de prisão em aberto estaria em um carro Volkswagen Crossfox, de cor preta, circulando pelo bairro Santana, em Conceição da Barra, e que teria como destino o Centro da cidade.
O documento diz que, com essa informação, a viatura com os dois policiais fez um cerco no Portal da Barra e conseguiu abordar o veículo. No carro estavam o motorista, de 44 anos, o filho dele (de 17) no banco do carona e, no banco de trás, o suspeito com as características repassadas na denúncia: Ezequiel. Segundo os policiais escreveram no boletim, ele teria dado um nome errado em um primeiro momento, mas os agentes confirmaram tratar-se de Ezequiel, que tinha, de fato, um mandado de prisão em aberto por suspeita de homicídio.
A Rede Notícia consultou o Banco Nacional de Mandados de Prisão e confirmou que existe, de fato, essa ordem de prisão contra Ezequiel por suspeita de assassinato. Trata-se de um mandado de prisão preventiva assinado pelo juiz Felipe Rocha Silveira, datado de 4 de dezembro de 2025, quando o magistrado recebeu a denúncia do Ministério Público e tornou Ezequiel réu. Não foi possível apurar em qual homicídio ele é suspeito, porque o processo corre em segredo de Justiça.
O boletim da Polícia Militar do dia 6 de fevereiro detalha que, durante as buscas, nada de irregular foi encontrado com os demais ocupantes do veículo. O motorista disse aos policiais que Ezequiel era conhecido do filho dele e que havia dado carona ao rapaz para que ele encontrasse a namorada no bairro Santana. O motorista e o filho foram liberados. O boletim feito pelos policiais detalha que o cabo Jandson e o soldado Francisco algemaram Ezequiel e o colocaram no camburão “sem lesões aparentes, para resguardar a integridade física da guarnição” e do próprio preso, diz o documento.
“Insta informar que o cofre da viatura não estava em boas condições, visto que as dobradiças da porta interna estavam enferrujadas, dificultando o fechamento das trincas, porém, mesmo com dificuldade, foram fechadas”, escrevem os policiais no boletim ao qual a reportagem teve acesso. Os agentes afirmam ainda no documento que os defeitos já haviam sido registrados no relatório do supervisor da equipe e na lista de checagem da própria viatura.
“Em ato contínuo, a guarnição deslocou para São Mateus para fazer a entrega do conduzido ao DPJ. Que, ao chegar na delegacia, a guarnição notou que um dos vidros traseiros da porta externa do lado direito do compartimento de segurança da viatura estava ausente, e que, ao abrir as portas, foi constatado que Ezequiel havia quebrado a porta interna da viatura, facilitando assim que ele quebrasse uma das janelas e se lançasse algemado para fora do veículo”, diz textualmente o boletim, feito pelos dois policiais naquela noite.
Segundo o documento, o caso foi comunicado, ainda naquela noite, ao coordenador do policiamento da unidade, o sargento Mineli, “que orientou que a guarnição tirasse algumas fotos das avarias causadas pelo foragido”, diz o boletim. A Rede Notícia teve acesso a essas imagens feitas pelos policiais.
O boletim feito pelos militares diz ainda que eles retornaram pelo mesmo caminho que haviam percorrido, na tentativa de localizar Ezequiel, “sendo possível localizar os estilhaços do vidro e a guarnição de borracha da janela da viatura na rodovia ES 421, a aproximadamente dez quilômetros da BR 101, sentido Conceição da Barra”. O documento termina informando que a algema usada por Ezequiel pertencia ao cabo Jandson, fazendo parte da carga da Polícia Militar, ou seja, um equipamento do Estado entregue ao servidor para uso no trabalho.
“Como pode uma pessoa algemada supostamente quebrar a viatura, e os policiais não escutarem nada, e só se derem conta quando chegaram à delegacia? Estavam surdos? Estavam cegos? A história não fecha, não tem a menor lógica”, relatou um familiar da vítima, sob reserva, à reportagem.
Outro familiar contou que conversou com Ezequiel até as 23h daquela sexta-feira, dia 6 de fevereiro, e que depois foi informado de que o rapaz havia sido detido pela Polícia Militar. Segundo esse familiar, porém, chamou atenção a falta de retorno e a impossibilidade de contato com Ezequiel depois disso. Ele considera “absurda e injustificável” a versão apresentada pelos policiais.
O boletim de ocorrência feito pela família, formalizando o desaparecimento de Ezequiel, foi registrado na segunda-feira seguinte, dia 9 de fevereiro.
O artigo 129, inciso VII, da Constituição Federal atribui ao Ministério Público o dever de fazer o controle externo da atividade policial. A Rede Notícia apurou que o Ministério Público do Espírito Santo começou a analisar o caso desde abril.
A Polícia Civil informou nesta quarta-feira (2), “que as investigações estão em andamento e são conduzidas pela Delegacia de Polícia de Conceição da Barra”, que “o caso é tratado como desaparecimento e segue sob sigilo”.
Em nota, a Polícia Militar informou “que instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM), que, após sua conclusão, foi encaminhado à Justiça Militar”. Segundo a PM, “o Ministério Público manifestou-se pelo arquivamento do IPM, decisão posteriormente homologada pelo Juízo competente da Justiça Militar. Na esfera administrativa, um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) foi instaurado que resultou em uma punição administrativa, conforme previsão do Código de Ética e Disciplina dos Militares Estaduais (CDME)”.
A reportagem procurou o Ministério Público desde a última segunda-feira. Até a última atualização deste texto, não havia retorno.
A reportagem também solicitou posicionamento da Associação dos Policiais e Bombeiros Militares do Espírito Santo, mas não obteve resposta até a última atualização, e segue tentando contato com a defesa dos policiais citados no texto. Este espaço permanece aberto para posicionamento.
Na íntegra | Nota da Polícia Militar
De acordo com informações que constam no boletim de ocorrência, na noite do dia 06 de fevereiro de 2026, policiais militares receberam a informação de um colaborador anônimo de que um indivíduo com mandado de prisão em aberto, oriundo de São Mateus, estaria em um veículo circulando pelo bairro Santana, Conceição da Barra com destino ao Centro do município.
De posse da informação, segundo o boletim, a guarnição realizou cerco no Portal da Barra e efetuou abordagem ao veículo. De acordo com os policiais, no carro estavam o motorista de 44 anos, o filho de 17 e um terceiro ocupante que, inicialmente, forneceu identificação falsa, sendo posteriormente identificado como o suspeito procurado. Em consulta ao sistema foi confirmado o mandado de prisão em aberto pelo artigo 121 do Código Penal.
Os demais ocupantes do veículo não possuíam pendências e foram liberados. Durante a busca no automóvel, nada de ilícito foi localizado. Em razão do mandado em aberto, o suspeito foi algemado e colocado no compartimento de segurança da viatura.
De acordo com o boletim, a equipe seguiu para a Delegacia Regional de São Mateus para entregar o detido, porém ao chegar na delegacia, foi constatado que um dos vidros traseiros do compartimento de segurança estava ausente e que o suspeito teria danificado a porta interna da viatura, o que teria possibilitado uma fuga. Buscas foram realizadas, mas no trajeto percorrido foram encontrados somente estilhaços de vidro. O indivíduo não foi localizado.
A Corporação informa que instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM), que, após sua conclusão, foi encaminhado à Justiça Militar. O Ministério Público manifestou-se pelo arquivamento do IPM, decisão posteriormente homologada pelo Juízo competente da Justiça Militar. Na esfera administrativa, um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) foi instaurado que resultou em uma punição administrativa, conforme previsão do Código de Ética e Disciplina dos Militares Estaduais (CDME).

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